Praia do Góes

Antigo paraíso, Praia do Goés, em Guarujá, SP, enfrenta a degradação Praia era deserta e usada como apoio da Fortaleza da Barra, em Guarujá. Água invadiu a areia, lixo apareceu e comunidade sofre com a degradação.

Praia do Góes em Guarujá, no litoral de São Paulo (Foto: Mariane Rossi/G1)

Pequena praia com águas mansas e colônia de pescadores onde habitam cerca de 300 pessoas, com casas típicas de pescadores e crianças acostumadas a saltar na água das pontes dos atracadouros, é ponto tradicional de paradas de embarcações de passeio.

O acesso é feito por barcos ou por terra numa trilha de mais ou menos 20 minutos de duração. No início da colonização dois irmãos de sobrenome Góes receberam a posse da área, em consequência, ela ganhou o nome dos proprietários.


A Praia do Góes, escondida em meio a Mata Atlântica em Guarujá, no litoral de São Paulo, já foi rica em história e belezas naturais. Mas, períodos de degradação ambiental e uma ocupação desordenada mudaram a paisagem do lugar. A água invadiu a faixa de areia, o lixo apareceu e a comunidade pesqueira, que passou a morar na praia, sofre com a falta de saneamento básico, segurança e até problemas financeiros, sem a pesca e o turismo no local.

Uma praia pequena, de águas calmas e areia branca. Essa é a Praia do Góes que pertence ao município de Guarujá e que se pode ter acesso apenas por barco ou por trilha. Por isso, desde a época em que foi descoberta, no século XVIII, serviu como um refúgio. “Foi por volta de 1770 que aconteceu a construção do forte (Fortaleza da Barra). Se tem forte, tem gente que naturalmente morava do lado. O forte funcionou por uns 150 anos e depois ficou desativado. Mas você tem as pessoas que foram ficando”, explica Ivanildo Ferreira Guimarães, guia regional de turismo e articulador, histórico, cultural e artístico na Fortaleza da Barra.

A Praia do Góes recebeu esse nome, segundo Guimarães, após a chegada dos portugueses no Brasil. Provavelmente, o homem que ficou com a posse da praia colocou seu sobrenome naquele pedaço de chão. “Quando Brás Cubas veio para cá ele trouxe aproximadamente 32 cidadãos de confiança dele. Com isso você tem vários sobrenomes. E quando surgiram as capitanias e outras divisões menos importantes, ele deu para as pessoas. Naturalmente, vai assumindo o nome da pessoa”, conta o guia. O local passou a servir como um ponto estratégico para os portugueses. Eles podiam avistar os piratas e não deixava que eles parassem na praia. “As pessoas ficavam aqui para impedir que alguém descesse e chegasse por terra no Forte”, afirma Guimarães.

A praia, com 250 metros de extensão, passou então a ganhar habitantes, principalmente pescadores que viviam da venda de ostras, mariscos e peixes. Com o passar dos anos, as casas simples passaram a construções maiores e a ocupação passou a ser maior e desordenada. Atualmente 80 famílias moram no local, com cerca de 300 pessoas.

Há cerca de 10 anos, as transformações na praia começaram a ser perceptíveis. Tudo o que ela proporcionava para a população pesqueira foi sendo perdido aos poucos. Em 2001, ainda era possível realizar jogos de futebol devido a extensa faixa de areia da Praia do Góes. Alguns anos depois, isso não era mais possível. “Há casas em cima da própria muralha do forte, casas muito próximas a areia, talvez porque naquele período que as pessoas fizeram as casas, a faixa de areia era maior”, disse o guia.

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Lixo, passarela invadida pela água e praça tomada pela areia são algumas mudanças da Praia do Góes (Foto: Mariane Rossi/G1)

Em 2008, Associação dos Moradores da Praia do Góes já notava a redução da faixa de areia em cerca de 50%.  Além disso, os proprietários das residências em frente à praia sofreram com a água que começou a avançar e destruir as casas. Muros tiveram que ser erguidos para conter a água. Houve também danos turísticos e comerciais, já que desapareceram as ostras, mariscos e guaiás, um caranguejo de costão rochoso muito apreciado e consumido por moradores locais. A fauna e a flora do local também foram afetadas.

Os moradores dizem que a dragagem do Porto de Santos é o principal fator que contribui para as transformações na Praia do Góes. Em uma das cartas enviadas às autoridades, a Associação dizia que “são intensas as atividades portuárias em frente à Praia do Góes. Grandes navios cargueiros, contêineres, graneleiros, barcaças e batelões, sem contar os transatlânticos que todo verão aportam no cais de Santos. Percebemos também que a cada dia eles estão mais próximos da praia. Alguns navios, ao cruzar o canal em velocidade acentuada, chegam a causar danos às embarcações atracadas no píer”.

A maré sempre costumava subir no final da tarde. Agora isso ocorre com mais frequência e o espaço, que antes era garantido para as cadeiras e para o banho de sol dos turistas, está sendo disputado por quem visita o local e que passar o dia na praia.

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Morador e guia turístico Ivanildo Guimarães mostra pier que foi desativado (Foto: Mariane Rossi/G1)

O guia conta que há cerca de três anos uma praça que ficava em frente a praia foi invadida pela areia. Uma das passarelas em que havia local para o embarque e desembarque de turistas e moradores foi destruída pela água e pela areia.  “A água batia por baixo e passava uma pessoa por baixo. Veio tanta areia que cobriu tudo, cobriu a pracinha e agora está desta forma”, disse ele. Pesquisadores da Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), de Santos, fizeram uma pesquisa na área e observaram que além do

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Trilha que dá acesso a Praia do Góes (Foto: Mariane Rossi/G1)

acúmulo de areia o grão também
foi engrossando.

Além de guia, Ivanildo Guimarães também é morador da Praia do Góes. A comunidade o recebeu de braços abertos e ele, que veio do Nordeste, encontrou uma nova morada nessa praia distante do movimento das grandes cidades. Hoje, ele prefere levar uma vida mais pacata, proporcionando o conhecimento histórico e cultural na Fortaleza da Barra. Por isso, acompanhou a equipe do

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Dona Erci, uma das moradoras mais antigas da Praia do Góes (Foto: Mariane Rossi/G1)

G1 durante a reportagem na Praia do Góes. Há duas trilhas que dão acesso ao local e a equipe optou em ir pelas pedras, entre o mar e a vasta área verde de Mata Atlântica que cobre o morro. Durante o percurso, as pedras são escorregadias. Entre as pedras, também há várias pessoas consumindo drogas e passando a todo o momento fumando cigarros, certos de que o local não é fiscalizado e que nunca serão flagrados por ali.

Esse cenário é comum para os moradores do Góes. Mas eles sentem saudade dos velhos tempos, em que a praia era considera paradisíaca e com características bem primitivas. Esse é o caso de Erci Barbosa, de 75 anos, que mora desde criança na Praia do Góes. Ali conheceu o marido, casou-se e teve nove filhos. Quando precisa sair da comunidade, geralmente quando precisa ir ao médico ou fazer compras, ela utiliza a barquinha para ir até Santos. Para ela isso não é um esforço. E, mesmo notando as mudanças na Praia do Góes e na qualidade de vida que foi afetada por conta disso, ela não pretende sair de lá. “Aqui é o céu”, afirma Erci. “É uma praia pequena e bonita. Dava para controlar bem, poderia ser um pequeno paraíso. Mas a nossa cultura de ocupar de qualquer forma e não dar importância a determinadas coisas faz isso. A parte visual, ambiental e de higiene está desse jeito. Nós não temos esgoto, é a céu aberto, caindo no mar”, disse Guimarães que adotou a praia como lar.

Mesmo com o turismo em baixa, a Praia do Góes continua recebendo visitantes que buscam simplicidade e uma vista repleta de tranquilidade, fora do centro urbano. Os comerciantes que oferecem porções de carangueijo e pratos a base de peixe ainda aguardam que um dia a movimentação de turistas aumente para que a praia seja mais preservada, que haja desenvolvimento, mas que os avanços venham atrelados ao bem estar da natureza.

Em nota, a Prefeitura de Guarujá afirma que a Praia do Góes, devido ao processo de dragagem do Porto, está com sua paisagem natural sendo modificada, acumulando areia, oriunda do processo de retirada da areia do fundo do mar. Sendo assim, a Prefeitura entregou um laudo ao Ministério Público Federal pedindo providências por parte da CODESP e aguarda a definição do órgão. Este processo causou a queda do antigo píer de atração do local. Já em relação à coleta de lixo, a Prefeitura afirma que a Praia do Góes, devido seu difícil acesso, tem sua operação realizada por meio de embarcações, que vão ao local para recolher o lixo dos moradores. Nesta sexta-feira (22), uma equipe da Prefeitura de Guarujá vai ao local, a convite da associação de moradores, para um encontro e discutir assuntos do local. Em relação aos usuários de drogas e ao esgoto, a Prefeitura de Guarujá acionará a Polícia Militar e a Sabesp, para tomar suas devidas providências, respectivamente.

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Mar traz muitas conchas para a Praia do Góes, em Guarujá (Foto: Mariane Rossi/G1)

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